Humberto Mauro

O século 19 estava a três anos de seu fim quando Humberto Duarte Mauro nasceu, nesta cidade de Volta Grande, estado de Minas Gerais. Ninguém podia imaginar que o recém-nascido, filho do imigrante italiano Caetano Mauro e da mineira Tereza Duarte, seria um pioneiro em uma nova arte e o maior diretor dos primeiros tempos do cinema nacional. Cinema era uma novidade bem distante da fazenda em Volta Grande: fazia apenas dois anos que os irmãos Lumière haviam exibido sua primeira sessão cinematográfica, em Paris, na França.

Nos seus primeiros anos de vida, Humberto mostrou interesse pela mecânica e pela música. Tocava violino e bandolim nas horas vagas - e estudava engenharia em Belo Horizonte.

Mauro deixou a escola no fim do primeiro ano e foi se juntar aos pais na nova casa, em Cataguases. A eletricidade começava a ser instalada nas cidades do interior: essa revolução tecnológica fascinou o rapaz. Seu primeiro trabalho foi instalar eletricidade em fazendas e sítios locais. Ele também construiu o primeiro aparelho de receptor rádio em Cataguases.

Foi para o Rio de Janeiro, a capital federal, em 1916, onde trabalhou como eletricista por quatro anos. Ao fim desse período, voltou para Cataguases e se casou com Maria Vilela de Almeida, a dona Bebê.

Interessado em fotografia, Mauro comprou uma câmara Kodak, em 1923, e conheceu Pedro Comello, italiano que era o principal fotógrafo da cidade. Os dois logo descobriram um ponto em comum: a paixão pelo cinema. Juntos, compraram uma pequena filmadora Pathé-Baby de 9,5 mm. Foi com essa câmera doméstica que Mauro e Comello filmaram "Valadião, o Cratera", um curta-metragem de aventura.

Sua intenção era convencer um empresário local a investir numa produtora em Cataguases. Na época isso era possível, pois o cinema brasileiro estava pulverizado em várias empresas regionais, não havia uma companhia grande que centralizasse a produção de filmes. Assim, o iniciante cinema brasileiro cresceu nos anos 1920, com a proliferação desses pequenos produtores.

Nesse clima, Mauro e Comello conseguiram financiamento para seu projeto. Compraram uma filmadora 35 mm no Rio de Janeiro e centenas de metros de película: começaram a rodar "Os Três Irmãos" - filme que nunca foi terminado. Com mais dinheiro, de um novo financiador, fundaram a Phebo Sul América Filmes. O primeiro filme da Phebo, dirigido por Mauro, foi "Na Primavera da Vida", de 1926. Mauro não só dirigiu, mas escreveu e foi co-autor dos roteiros, atuou em pequenos papéis, operou a câmera, colaborou nos cenários e na iluminação.

Sua segunda produção foi "Tesouro Perdido", que teve sua primeira exibição em Cataguases, e depois foi apresentado no Rio, ganhando o prêmio de melhor filme do ano, em 1927. A Phebo cresceu e foi reorganizada, com o nome de Phebo Brasil Filmes. Agora Mauro tinha recursos para fazer filmes em que ele podia desenvolver sua criatividade. O primeiro dessa leva, "Brasa Dormida", foi distribuído pela Universal Pictures. Tornou-se um clássico que estimulou o cinema de arte no Brasil e colocou Mauro entre os melhores diretores do cinema mudo no mercado mundial.

Apesar do sucesso, a Phebo não tinha dinheiro suficiente para bancar a tecnologia sonora do novo cinema falado. Para sorte de Mauro, um colega convidou-o para dirigir na Cinédia, uma companhia formada no Rio de Janeiro. É dessa época a comédia romântica "Lábios Sem Beijos".

Seu último filme na Cinédia foi "A Voz do Carnaval", um musical de 1933 sobre o carnaval carioca, co-dirigido por Adhemar Gonzaga. Esse foi o primeiro filme falado de Mauro e lançou Carmen Miranda na carreira cinematográfica.

Mas eram poucas as oportunidades de trabalho no mercado cinematográfico. Assim, Mauro dirigiu documentários para sobreviver: "As Sete Maravilhas do Rio de Janeiro", "Inauguração da Sétima Feira Internacional de Amostras da Cidade do Rio de Janeiro", "General Osório" e "Pedro II".

O próximo filme, "Favela dos Meus Amores", teve trilha musical de astros renomados, hoje clássicos da MPB: Noel Rosa foi para um filme dirigido por Mauro, "Cidade Mulher", de 1936. No mesmo ano, o cineasta entrou para o Instituto Nacional do Cinema Educativo, fundado por Edgar Roquette-Pinto, e rodou mais de 300 documentários. Filmou ainda os longas-metragens "O Descobrimento do Brasil", "Argila", e "O Canto da Saudade", este de 1952.

Sua última realização foi 'Carro de Bois', de 1974, um entre os muitos curtas e documentários rodados em seus Estúdios Rancho Alegre, localizados na sua terra natal, Volta Grande, Minas Gerais.

Homenageado no Festival de Cannes, em seu último ano de vida, Mauro também serviu de inspiração para uma geração de cineastas brasileiros, como Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos.